quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma prisão que parece mais uma colônia de férias

 

As fotos que ilustram este post poderiam decorar tranquilamente as vitrines de qualquer agência de viagem, não é mesmo? A primeira impressão é que se trata de uma colônia de férias. Trata-se de uma ilha pequena com dezenas de casas e poucos prédios.
Nas casas - em geral, com dois quartos, sala com tevê, cozinha, banheiro - em vez de turistas, moram assassinos e traficantes de drogas condenados pela Justiça. Estamos falando da prisão de Bastoy, na Noruega.

O jornalista Paulo Nogueira esteve lá e narra com detalhes como é a vida naquela prisão mais parece, reitero, uma colônia de férias. Confiram:

Há um alarido em torno das declarações do ministro da Justiça, em relação às cadeias brasileiras. Cardozo disse, essencialmente, que preferia morrer a cumprir pena nelas.

Muita gente, com certeza, concorda com ele. É talvez um consenso entre os brasileiros: nossos presídios são vergonhosos. Eles não são feitos para reabilitar, mas para simplesmente manter alijados da sociedade os prisioneiros.

Mas a existência do consenso não resolve o problema. Como melhorar, efetivamente, nossas cadeias? O Diário tem, modestamente, algumas sugestões. Primeiro, é preciso ver, no mundo, que experiências são bem-sucedidas, para encurtar o percurso.

É de ampla aceitação entre estudiosos, na esfera internacional, que a melhor referência em presídios hoje é a Noruega. Foi exatamente isso que me levou, há poucos meses, numa missão jornalística à Noruega. Mais especificamente, à prisão de Bastoy, numa ilha a cerca de uma hora da capital Oslo.

Solicitei por email uma entrevista ao diretor do presídio, o psicólogo Nilsen Kvernvik. Ele me respondeu atenciosamente, mas me pediu para esperar alguns meses, porque diversas companhias jornalísticas em todo o mundo estavam na fila para conhecer Bastoy, da BBC à CNN.

Bem, não me surpreendeu, para ser franco, que não houvesse uma única empresa brasileira de mídia interessada em conhecer a inovadora experiência de Bastoy, porque é baixa minha expectativa. Procurei Nilsen em maio deste ano, e só consegui agendar a ida a Bastoy para setembro.

Cheguei de balsa, acompanhado da fotógrafa Erika K Nakamura. A primeira impressão que você tem é que se trata de uma colônia de férias. A praia é bonita, embora você só possa aproveitá-la nos raros meses quentes da Noruega — pelo menos sob a ótica tropical de nós, brasileiros, acostumados a ver o mar como um gigantesco refresco.

É uma ilha pequena. Tem algumas dezenas de casas, e uns poucos pequenos prédios. Nas casas, moram os prisioneiros – que podem ser assassinos, ou traficantes de drogas, para ficar em alguns exemplos.

As casas têm, em geral, dois quartos, sala com tevê, cozinha, banheiro. Cada preso tem seu quarto, e num mercado comunitário ali mesmo em Bastoy eles podem comprar a comida que farão na cozinha. O dinheiro para as compras vem da remuneração que eles recebem pelos trabalhos que fazem na ilha.

Aos domingos, costuma haver um churrasco, em que aos detentos se juntam familiares e amigos que vão visitá-los. Num campo de futebol cuja grama é melhor que a do campos brasileiros, são disputados jogos. Traves pequenas encurtam o campo quando não há 22 jogadores.

Há cavalos para quem goste de cavalgar. Os próprios presos cuidam de tudo – dos cavalos, da manutenção do gramado. É uma festa, um prêmio?

Claro que não. Conversei com um preso, um traficante na casa dos 40 anos. “É preciso não esquecer que estamos presos”, me disse ele, gentil, solícito, bem vestido, expressão saudável. “Não podemos ir para o outro lado.” Ele me apontou, nesse momento, a outra margem de Bastoy.

Entrevistei diversos presos, e falei longamente com Nilsen. “Não podemos esquecer que um dia estes presos serão reintegrados à sociedade”, me disse ele. “Essa é a lógica que governa nossas ações.”

0 comentários:

Postar um comentário

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Top WordPress Themes