Hoje é segunda-feira de cinzas para muita gente.
Dia de ressaca física ou moral para os que foram e ressaca com gosto de “fui
obrigado a engolir isso” para os que ficaram curtindo o trago amargo do barulho
infernal, das ruas bloqueadas e tendo que ler notícias do tipo:
Pois é. Muito antes da super festa começar, vários
dias antes, os corredores vinham sendo preparados para receber o carnatal. Os
canteiros eram de causar inveja em qualquer morador natalense. Uma folha sequer
não caía ao chão porque já tinha um trabalhador da limpeza urbana esperando o
ataque da força da gravidade.
Enquanto isso, o resto da cidade afunda em um
lixão. Não há forças armadas que contenham a irregularidade na coleta e a falta
de educação do povo instruído para curtir quatro dias de pura festa quando
desconhece o mínimo da máxima: lugar de lixo é no lixo!
A segunda-feira acordou com cara amassada: sonolenta,
tendo que encarar a vida que continua depois dos quatro dias do carnaval fora
de época – você já parou para pensar o que seria um carnaval fora de época?
Como se o da época (?) já não fosse suficiente? Contradizemo-nos.
Segundo o Aurélio, “Época”, é um substantivo
feminino que quer dizer:
·
• Momento histórico ou espaço de tempo, assinalado
por um fato importante – repito: FATO IMPORTANTE;
• Sucesso notável, escolhido para uma divisão do
tempo: a época das Cruzadas;
• Tempo decorrido entre dois acontecimentos
notáveis;
• Espaço de tempo, que se seguiu a cada uma das
grandes alterações do globo terrestre: a época terciária.
Começa, então, a partir disso a banalização das
coisas e dos termos da língua portuguesa; da nossa paciência e da nossa
capacidade de suportar a alegria de poucos. Ah, como sou chata, não é mesmo?! –
Nossa, ela se incomoda com a felicidade
dos outros! Não me entendam mal, eu não tenho nada contra a felicidade
superficial dos outros ou contra a festa em si, e muito menos nada a favor.
Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu,
já dizia o poeta sem causa. Devo estar morta desde que nasci. A minha vontade
de ir atrás daquele carro com luzes coloridas em neon é proporcional ao meu
amor pelo axémusic, ou seja: zero.
Na sexta-feira à tarde tive a bela ideia de ir a
uma loja na Prudente de Morais, infelizmente tinha que ser esse estabelecimento
que se situa no coração da festa pulsante. Eram 14h30 daquela tarde, mas
parecia dia 1º de janeiro: tudo vazio. O mundo deu passagem ao ‘carnaval fora
de tempo’, porque tem de ser.
Para os que defendem o espetáculo do rei Midas, que
maneja essa engrenagem há mais duas décadas, não me tragam argumentos do tipo
que, economicamente falando, o evento é viável para a cidade porque gera
milhões de empregos diretos e indiretos. É verdade. Mas só para os grandes
empresários que já têm o bastante para viver sem essa fórmula mágica que
transforma pedaços de panos coloridos, uns tchurumrums
e lelê-lelês, repetidas vezes, em
muito dinheiro.
Ou será que os
vendedores de cerveja, espetinhos, água mineral ficam milionários nesses quatro
dias? Mostre-me um rico que esteja lá debaixo daquelas barraquinhas...
No sábado (08), pela manhã, por volta das 6h30, a
caminho da UFRN, passei pelas ruas da folia. Da Avenida Prudente de Morais a visão era triste. Muito lixo e um mau cheiro insuportável
oriundo dos dejetos humanos que escorriam dos banheiros químicos. A sensação
que tive foi de estar no cenário de o "Ensaio Sobre a Cegueira" de
Saramago. A metáfora é a mesma: todos cegos por uns dias, com uma diferença:
aqui somos os cegos que não querem ver.
É para esse evento anual, dito o maior do mundo,
que toda a mídia local se volta: transmissão ao vivo, flashs a doidado no rádio
e páginas inteiras de jornais. É para esse evento, também, que toda a nossa
pouca segurança pública, que se torna meio privada, se empenha em trabalhar.
Dane-se quem precisar de policiamento na zona Norte da cidade, afinal, no
final, os números precisam mostrar que esse
foi o carnaval com o menor número de casos de violência dos últimos anos:
isso é um título de jornal.
Acho que sou antiquada. Que importa? Me-careta. Não
tenho um cartão de crédito capaz de parcelar em doze vezes um abadá para pular
no Caju – isso deve dar uma nódoa no bolso até o próximo, não é? E enfrentar
uma fila quilométrica, sob o sol rachante de Natal para pegar a “mortalha”? Não
mesmo. Sou careta! Nem cem Ivetes juntas fariam minha pessoa cultivar alguma
simpatia por essa tradição fadada ao fim, eis uma profecia utópica.
Vamos falar sério: sabemos que estar no carnatal é
estar no rol dos exibicionismos sociais, afinal lá estão as estrelas da Globo e
o nosso colunismo social inteiro, cobrindo o que vai ser estampado nos jornais,
naquelas páginas chamadas de “Cultura”,
isso quando não estão no “Burro Elétrico”, como amostra grátis de
intelectualidade, aquilo que todo comunicador deve possuir por osmose ou
obrigação.
E as máscaras? É lá também que devem cair várias
delas. Um paradoxo, já que são nessas folias, tipo de momos, que as máscaras
são postas. Sabemos que é muita gente vazia entupida de prazer social. Eu sei
que eu precisaria conhecer a verdadeira pessoa embaixo disso, mas por mais
protetora dos animais que eu seja, eu não consigo. Mas não tem nada, não, na
segunda-feira todo mundo se empacota novamente de civilidade e respeito – ou
não - até a próxima vez, porque todo carnatal tem seu fim.
* Leide Franco é comunicadora, assessora de comunicação e apaixonada por literatura e Música Popular Brasileira.

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